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| Exposição PNAlvão |
| Exposição PNAlvão |
Fotomontagem de Diogo Carvalho
A recente portaria de calendário venatório (Portaria n.º 288/2010 de 27 de Maio) inclui pela primeira vez em 21 anos a Gralha-preta (Corvus corone) como espécie cinegética explorável (ao invés daquilo que estava, como corrigível). Face à similaridade das Corvus corone com a Pyrrhocorax pyrrhocorax, o abate desta espécie protegida poderá ser uma realidade, cabe a todos sensibilizar os caçadores e gestores de caça das áreas de ocorrência desta espécie, para esta possível confusão e esperar que esta Portaria não traga impacto sobre esta espécie Em Perigo (EN) de extinção.
Logotípo desta iniciativa concebida por João Cabral
Ao longo dos últimos sete anos o Parque Natural do Alvão (PNAlvão) tem vindo a desenvolver um projecto de Animação e Educação Ambiental intitulado “Descobrir o Alvão”, alguns dos objectivos deste projecto são:
Neste sentido, a Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) será objecto da próxima iniciativa.
No seguimento de outras actividades de conservação realizadas em parceria com esta instituição, o PNAlvão convidou o projecto Bico-vermelho a participar nesta acção, o qual aceitou com todo o grado e empenho, que sem dúvida virá a transmitir maior conhecimento da espécie, biologia e ameaças que contribuirá para sensibilizar os mais jovens (e não só) para esta espécie tão ameaçada e em perigo de extinção.
O gráfico apresentado reflecte a dinâmica e flutuação sazonal do núcleo populacional do Barroso, numa área tipicamente de reprodução.
Pela observação do gráfico podemos verificar que existem dois períodos perfeitamente definidos: 1) época de reprodução; 2) época de invernada. O bando de invernada aumenta progressivamente a partir de Setembro/Outubro, primeiro com os casais reprodutores residentes (5-6 em 2008 e 4-5 em 2009), seguindo-se os grupos familiares, depois grupos familiares integrados nos bandos de não reprodutores e finalmente os bandos de não reprodutores mais os juvenis do ano e os reprodutores.
O rápido desaparecimento da maioria das aves não reprodutoras do bando que ocorre em Março/Abril, causa uma diminuição do tamanho do bando e aumenta o número de contactos com casais isolados, originando assim uma nova fase de estabilização do número de efectivos reprodutores.
Muito se tem discutido sobre as razões para estas variações sazonais dos bandos de Pyrrhocorrax pyrrhocorax, uma das razões mais mencionada na bibliografia é a disponibilidade e distribuição de alimento, outra razão e que a meu ver é a mais plausível, visto esta ser uma área de reprodução, tem haver com os hábitos reprodutores típicos destas aves. O aumento do número de indivíduos após a época de criação parece ter vantagens, nomeadamente na vigilância das crias, aprendizagem e alimentação. Com o aumento dos bandos, o tempo dedicado individualmente à vigilância diminui, e consequentemente aumenta o tempo de alimentação individual, assim como o grau de vigilância geral. A formação de bandos pode facilitar a aprendizagem de novas técnicas de alimentação e a utilização de fontes alimentares alternativas.
Muito embora as gralhas-de-bico-vermelho, possam passar desapercebidas, em especial quando estão a alimentar-se, normalmente em zonas de queimadas (que podem ajudar na sua dissimulação), pastagens naturais ou zonas rupícolas, a sua identificação é relativamente fácil, esta espécie é um Corvideo de plumagem completamente preta de tamanho médio-grande, mede cerca de 39-40cm, tem uma envergadura alar de 73-90cm e pesa entre 230 e 390g. Possui um bico vermelho intenso, comprido e curvado característico desta espécie.
O voo das Pyrrhocorax pyrrhocorax é muito característico, já que realiza frequentemente voos (vídeo de Francisco Barros - PNSAC ) picados e um grande número de acrobacias e piruetas, acompanhados frequentemente por chamamentos inconfundíveis.
Mais vídeos aqui
Foto de Jan Buys (Esquerda José Nascimento, direita Jan Piet Bekker)
“A lua eleva-se no horizonte gelado da Serra do Alvão. Um lobo aponta o focinho ao astro. E outro. E mais outro... A alcateia inteira uiva incessantemente, anunciando a despedida daquele que, durante anos e anos, foi seu companheiro e acérrimo defensor. Num dia solarengo centenas de insectos povoam os prados de montanha que ladeiam os rios e ribeiros serranos. Entre eles, o mais importante é um bicho pequeno, frágil, de um inigualável azul eléctrico, quatro asas oferecidas ao vento que passa, tromba metida no néctar das Ericas: é a Maculinea alcon, a borboleta mais ameaçada de Portugal. No próximo Verão estes bichos irão procurar-te avidamente por entre milhares de flores, linhas de água puríssima e rochas aquecidas pelo sol escaldante. No lugar onde te encontrares velarás pelos teus queridos lobos, pelas espécies em perigo e pela tua saudosa família e amigos” (Ernertino Maravalhas).
Não podia deixar de passar esta data sem homenagear a pessoa que me ensinou a olhar a natureza da maneira com a vejo.
Obrigado Zé
Paulo Barros
A distribuição da gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) em Portugal é bastante fragmentada e resume-se basicamente a 6 núcleos populacionais mais ou menos estáveis, Sagres, Serra de Aires, Serra da Estrela, Douro Internacional/Superior, Alvão/Barroso e Gêres, havendo ainda observações pontuais em outros locais como na Serra da Cabreira, Mértola ou na Zambujeira do Mar.
Provavelmente um dos maiores núcleos, espacial e numericamente será o do Douro Internacional/Superior, contudo a informação sobre desta espécie nesta zona é bastante pontual e dispersa. Do nosso conhecimento e das informações que nos tem chegado foi possível confirmar 16 das 38 quadrículas (5X5 km) de possível ocorrência, além das observações feita no Douro Interncional/Superior, foi ainda confirmada a presença desta espécie no Sítio de Importância Comunitária (SIC) Rio Sabor e Maçãs.
Aproveito este post para deixar uma palavra de agradecimento, a todos aqueles que nos tem ajudado através do envio de observações realizadas de Norte a Sul de Portugal, a todo muito obrigado.
Na Europa, a maior parte dos estudos feitos sobre a caracterização dos habitats utilizados pelas Gralhas-de-bico-vermelho para se alimentarem, demonstram que as zonas de pastagens assim como certos habitats naturais, como por exemplo arrelvados (litorais e/ou de montanha) ou os sistemas dunares, são de elevada importância.
A utilização das zonas de alimentação por parte desta espécie, resulta basicamente de uma selecção em função da estrutura da vegetação, onde a altura da vegetação pode interferir com a técnica de caça e das espécies presas presentes.
Para quantificar a importância do habitat de alimentação, nomeadamente em períodos cruciais como é o da reprodução, um estudo realizado na ilha de Ouessant entre 1998 e 2003, revelou que nos períodos de reprodução as Gralhas-de-bico-vermelho preferem zonas onde a vegetação não ultrapassa os 5 cm de altura, visto que 88% das observações foram feitas neste tipo de vegetação, muito embora este, represente apenas 8% da ocupação do solo, o que demonstra a importância deste tipo de habitat para esta espécie.
Durante a época de reprodução, afastar-se do local de nidificação para se alimentar implica custos em termos energéticos e de tempo, os quais podem ser preponderantes para a taxa de sobrevivência da sua prole, visto que quanto mais longos são os trajectos, mais tempo é gasto nos deslocamentos, tempo que é amputado ao tempo efectivo de alimentação. Da mesma forma, quanto maior for o percurso entre o local de alimentação e o de nidificação, maior será a probabilidade de atravessarem territórios e serem atacados por congéneres, embora as gralhas sejam sociais durante todo o ano, tornam-se agressivas no período de reprodução e especialmente entre aves reprodutoras. Também a taxa de predação de crias aumenta em função de maiores distâncias entre o local de nidificação e o local de alimentação, visto existir uma menor eficácia na vigilância do ninho. Assim a distância entre os ninhos e as zonas de alimentação são um compromisso entre custos (tempo, energéticos e predação) e ganhos (recursos alimentares), de acordo com os estudos realizados a maioria dos casais reprodutores utilizam áreas de alimentação entre os 200 metros e 3 km de distância.
Distância dos principais locais de alimentação (0,5 e 2,2 km) na época de reprodução de um dos ninhos monitorizados pela equipa.
Bibliografia consultada:
Bignal, E.M., McCraken, D.I, Stillman, R.A & Ovenden, G.N. 1996. Feeding behavior of nestling choughs in the Scottish Hebrides. Journal Field Ornithol. 67: 25–43.
Blanco, G., Tella, J.L. & Torre, I. 1998. Traditional farming and key foraging habitats for chough Pyrrhocorax pyrrhocorax conservation in a Spanish pseudo steppe landscape. Journal of Applied Ecology 35: 232-239.
Faringha, J.C. 1991. Medidas urgentes para a conservaçào da Gralda de bico vermelho Pyrrhocorax pyrrhocorax em Portugal . Estudos de biologia e conservaçao da Natureza. 2. SNPRCN, Lisboa.
McCanch, N. 2000. The relationship between Red-Billed Chough Pyrrhocorax pyrrhocorax (L) breeding populations and grazing pressure on the Calf of Man. Bird Study 47: 295–303.
Whithead, S., Johnstone, I. and Wilson, J.D. 2005. Choughs Pyrrhocorax pyrrhocorax breeding in Wales select foraging habitat at different spatial scales. Bird Study, 52,193-203.
Kerbiriou, K. 2006. Impact des changements d'usage sur la viabilité d'une population menacée dans un espace multi-protégé : le Crave à bec rouge (Pyrrhocorax pyrrhocorax)
sur l'île d'Ouessant.